Sempre que vejo notícias de “Primeiro brasileiro a subir a montanha X”, eu penso “Grande bosta!”, e nesse relato em que eu sou o protagonista de uma dessas histórias, você vai entender o por que.
No dia 21 de setembro de 2024, fui o primeiro brasileiro a subir o Cerro Sixilera, uma desconhecida montanha de pouco mais de 4700 metros em pleno deserto, no norte da Argentina, na província de Jujuy.
Não só fui o primeiro brasileiro, como subi sozinho, desde o povoado de Huacalera (que está a 2700 metros), tudo isso em 2 dias, algo extremamente exigente fisicamente, mas e daí? Mereço reconhecimento por isso?
Opino que não, pois metade dessa “conquista” se deve ao fato de eu poder trabalhar à distância, ter boa saúde, tempo pra treinar e não ter grandes despesas no meu dia-a-dia.
Por mais que eu tenha trabalhado muito e me planejado para isso, houve um fator sorte, e isso é inegável.
Como descobri essa montanha?
Eu havia ido a Jujuy em janeiro de 2024, durante o tempestuoso verão, e fiquei encantado com a região. Voltei ao Brasil intrigado em conhecer mais.
Um belo dia, estava em casa vendo o mapa de topografia dos arredores de Tilcara, e três montanhas me chamaram a atenção, Sixilera, Zucho e Centella, pelas seguintes razões:
- são as três montanhas mais altas atrás do povoado de Tilcara
- elas têm a mesma distancia entre si e formam uma espécie de coroa atrás de Tilcara
- elas estão no Trópico de Capricórnio, assim como minha cidade natal
- as montanhas das pontas (Sixilera e Centella) tem peregrinações religiosas há séculos, desde antes da chegada dos Incas e dos Espanhóis

O Sixilera foi a que mais me chamou atenção porque tinha uma construção no cume, e isso me deixou muito intrigado.
Pesquisei muito, e no início de 2024, a única informação que encontrei sobre Sixilera foi um artigo científico de Constanza Ceruti, a mais famosa arqueóloga de alta montanha da Argentina, que falava sobre as peregrinações que ocorrem ali desde antes da chegada dos incas e sobre o sítio arqueológico no cume, que era um templo!
Fiquei muito curioso para ver uma dessas peregrinações e conhecer o tal templo do cume, mas como não se trata de um roteiro turístico nem de uma rota tradicional de montanhismo, eu não achava informações precisas na internet.
Então, decidi ir pessoalmente a Jujuy no início de setembro, que é o meio da temporada de montanha, e sair perguntando aos moradores de Tilcara quando ocorreria a tal peregrinação.
Muito treino e um pouco de romance
Desde fevereiro de 2024, treinei musculação rigorosamente para prevenir lesões e aguentar uma boa carga, além disso, guiei alguns clientes na travessia dos Quatro Refúgios de Bariloche, algumas travessias no Itatiaia, acompanhei amigos guias na Serra Fina, e fiz algumas caminhadas solitárias nas serras do Voturuna e Itaqueri, que são as mais próximas de casa.
Chegando em Jujuy, logo no primeiro final de semana, conheci uma moça que eu já sabia que se tornaria minha namorada, a Carina. Até tiramos uma foto como se já fôssemos um casal, no espetacular mirante de Termas de Reyes.

Por acaso, saiu uma notícia sobre a peregrinação no jornal local, e aí descobri que ela ocorreria no final de semana seguinte, que seria o Equinócio de Primavera (a data de transição do inverno para a primavera).
Uma curiosidade que pouca gente sabe, é que todas as grandes festividades religiosas do mundo acontecem nessas transições de estação (verão, outono, inverno, primavera). Já era assim antes da chegada dos católicos na América, e quando eles chegaram, apenas precisaram converter as divindades locais (montanhas) em santas.
Como havia pouco tempo, fui direto à Tilcara na segunda-feira para me aclimatar à altitude. Não haveria tempo para me aclimatar aos mais de 4.000 metros do Cerro Sixilera, então fiz o possível para aclimatar-me a, pelo menos, 3000 metros.
Nos primeiros dias, apenas caminhei pelos mirantes ao redor do povoado. E por volta do terceiro dia, convidei um voluntário do hostel El Convento, o Joaquim, pra subir os 3200 metros do Cerro Negro de Tilcara comigo depois do meu expediente, já no fim da tarde. O Joaquim iria participar da peregrinação acompanhando uma banda local e já estava relativamente aclimatado.

Eu já havia subido o Cerro Negro sozinho, em janeiro, é uma montanha pequena em comparação às demais, e seu cume tem tantos espinhos que é impossível sair de lá sem arruinar a sola da bota, mas o caminho é interessante, pois também se trata de uma trilha ancestral, que também leva à sagrada Sixilera.
A expedição e a peregrinação
Conheci outras pessoas que fariam a peregrinação à Sixilera, mas como a peregrinação não iria até o cume, eu sabia que provavelmente estaria sozinho caso decidisse ir até lá.
Fui com a mente aberta para a possibilidade apenas seguir a peregrinação, afinal, já seria uma caminhada incrível e desafiadora, que chegava a 4.000 metros de altitude.
O dia chegou, peguei uma carona com um dos hóspedes do hostel, que queria ir até a capela de Sixilera, o Líbio.
Fomos até Huacalera, onde começa a trilha mais exigente para Sixilera, e ele estacionou a camionete nas margens do riacho Arroyo de la Huerta, que estava completamente seco (como se vê na foto, atrás de mim), e ali começamos nossa árdua caminhada pelo deserto, sem sombra nem pontos de água, carregando 6 litros na mochila.
Líbio estava com pressa e não queria tirar fotos, nos separamos em menos de 20 minutos de caminhada. Depois disso, encontrei apenas 1 peregrino no caminho, que me ofereceu uma bebida energética típica dali, a Ulpada, que é basicamente uma mistura de água, farinha de milho cozido, sal e açúcar.
Somado às folhas de coca que eu vinha mascando, posso dizer que tive “meu momento mais andino” da vida, haha.
O sabor da Ulpada lembra um pouco o de uma paçoca! Pedi pra ele me tirar essa foto…

A caminhada foi ÁRDUA, o sol inclemente. Quando eu olhei pra trás e vi o vale (da próxima foto) lá embaixo, a emoção foi enorme. Olhe o tanto que eu já havia caminhado, e repare também na trilha, minuciosamente cravada na montanha pelos povos locais há séculos atrás. ISSO ERA METADE DO CAMINHO!

Quando finalmente avistei o Cerro Sixilera (foto abaixo), me senti abençoado, nenhuma foto é capaz de retratar bem a majestosidade dessa montanha, ela realmente se destaca na paisagem. E dali também pude ver o caminho mais fácil da peregrinação, a trilha de Alonso, por onde vão as bandas de sikuri (peregrinos tocando flautas e tambores), que aliás… eu podia escutar.

Pouco depois, encontrei o riacho que abastece a minúscula comunidade de Sixilera, onde viviam os guardiões (auto-intitulados escravos) da estátua da Virgem da Nossa Senhora de Sixilera (a personificação católica da montanha).
Tentei tirar uma foto que não invadisse a privacidade de ninguém, sem pessoas nem animais, sem mostrar detalhes das moradias, pois sei que ninguém gosta disso, mas queria mostrar o quão incrível é a adaptação das pessoas a um ambiente com clima e vegetação tão rígidos, a 3700 metros de altitude.

O Santuário e a Virgem
Chegando lá, com um princípio de insolação, descobri que haviam dormitórios enormes para os peregrinos, mas não eram suficiente para todos, e como eu tinha todo meu equipamento, armei minha barraca e fui conversar com o pessoal. Eu era uma presença exótica ali, a única pessoa branca, o único estrangeiro, o primeiro brasileiro na história do lugar, e ninguém entendia como fui parar ali, nem eu, mas todos me trataram muito bem, como sempre. Tenho MUITO respeito e MUITO entusiasmo pelo povo andino, acho que isso fica bem evidente. Até me convidaram para participar de uma das bandas e seguir tocando até Tilcara, mas preferi decidir no dia seguinte, pois estava muito cansado e só pensava em comer e dormir.

Aliás, um fato interessante é que, 1 mês depois, quando fiz a travessia Tilcara-Calilegua sozinho, descobri que a dona do refúgio era a pessoa que me convidou para seguir com a banda, hahaha, nos cruzamos duas vezes em lugares diferentes da cordilheira, qual a chance?
Encontrei o Líbio e fui experimentar o chá dos peregrinos, que é servido num tambor gigante, onde as pessoas enfiam canecas de uso coletivo, que você deve lavar num outro tambor de água. Não sei se foi a ideia mais prudente, mas digamos que fui levado pela tradição local, hahaha. Em seguida fui à capela, e apesar não ser católico, chorei, e chorei muito… era muita informação, muita coisa, muita energia, sei lá.
Ver aquele povo tão guerreiro, com suas roupas e jeitos simples, fazendo tanto sacrifício para chegar lá e agradecer ou pedir ajuda à santa, é muito impactante.
Me considero uma pessoa bastante cética, exceto quando se trata dos Andes.
A cordilheira é minha guia espiritual desde que a vi pela primeira vez, em 2014.

O segundo dia, o cume
A noite a 3700 metros, evidentemente, foi muito fria, e eu não dormi nada apesar de botar protetores auriculares e tomar melatonina, porque as bandas tocaram ao longo de TODA a madrugada para se manterem aquecidas, já que muitos peregrinos não conseguiram espaço dentro dos abrigos do santuário e não possuíam equipamento para dormir quentinhos em suas barracas.
Às 4h da manhã, as bandas já saíram em direção à próxima parada, Ovejería, e aproveitando o silêncio que se seguiria, decidi dormir até as 8h da manhã, para então decidir meu futuro.
Levantei as 8h, fiz um café da manhã liofilizado, caguei no banheiro do santuário (um buraco no chão), e vesti 4 camadas de roupa:
- uma camiseta comprida de lã merino (presente da minha irmã)
- uma jaqueta fleece da Decathlon
- uma jaqueta de plumas
- um corta-vento leve de corrida

Apesar da noite difícil, eu sentia uma energia estranha, como se aquele templo no cume estivesse me chamando. Era como se eu escutasse um convite da montanha, me tratando como um filho. Sei que muita gente vai achar isso uma baboseira, mas foda-se, apesar de dormir pouco, eu me sentia com uma energia incrível, e decidi tentar, escutando meu corpo e prestando atenção a tudo, principalmente sintomas de mal de altitude.
O Líbio tinha voltado pra Huacalera, e eu perdi meia hora esperando um casal que dizia que queria ir ao cume comigo, mas eles não paravam de discutir, e no fim, disseram pra eu ir na frente.
E sabe o que aconteceu? Eu nunca mais vi eles, devem ter desistido.

Eu tinha apenas um incômodo, um corte no dedão que piorou muito com o ar seco e frio. Eu higienizava e fazia um curativo novo toda vez que sujava.
Outro incômodo, provavelmente devido à altitude, foi que eu precisei cagar umas 3 vezes em 4 horas, puta merda, que encheção, hahaha.
Chegando aos 4000 metros, decidi esconder minha barraca, isolante térmico e algumas roupas atrás de uma pedra. Dali em diante seguiria “apenas” com o kit de primeiros socorros, o saco de dormir, 2 refeições liofilizadas, fogareiro e 4 litros de água.
Um dado interessante é que… eu fui pegar água na nascente do córrego, e adivinha o que havia lá? Muita bosta de cabra, inclusive em cima da água.

Por isso é importante levar um filtro e um esterilizador (como Clor-In ou Hidrosteril).
Uma das coisas que mais me maravilhou dali em diante foram os calçamentos de pedras ancestrais, e os pequenos animais que – apesar de camuflados – se destacavam devido à vegetação rasteira, como as lebres, borboletas e guanacos.

Houve muitos momentos de emoção, uma coisa espiritual inexplicável, eu simplesmente chorava sem parar, perguntando à montanha: “Por quê você me quer aqui? Por quê você me trouxe de tão longe? Por quê outras pessoas vieram antes de mim e construíram esse templo? O que eu tenho a ver com elas?”
Por mais que estejamos aclimatados, a altitude mexe com a nossa cabeça, ela amplifica nossas emoções, ela faz a gente delirar um pouco, acredito que muitas das crenças dos povos andinos tem a ver com isso.
Quando cheguei na cota dos 4500, vendo essa paisagem da foto abaixo, sentia um sono incontrolável, efeito comum da altitude. A vontade, e o medo, era de cair no sono e acordar de noite, hahaha, segui a caminhada.

Depois de muito zig-zag pra subir ao cume, quando já estava a uns 100 metros de distância, o choro era incontrolável, e o efeito da altitude provavelmente ampliava tudo, eu via aquela construção e não podia acreditar, continuava perguntando: “Por quê eu?”
Tocar aquelas paredes me dava a sensação de estar tocando a história e sendo parte dela, de estar me comunicando com povos antigos.

Eu me sentia MUITO bem, mas as fotos deixam claro que eu estava meio detonado. Fiquei quase 1 hora no cume, e o mais louco foi que consegui sinal de celular 4G perto da entrada do templo. O que fiz? Uma chamada de vídeo com minha irmã, outra com o meu pai, e infelizmente não consegui com a minha mãe porque ela estava longe do celular, então gravei um vídeo e mandei pra ela.
Obviamente também fiz uma chamada com a Carina, que me havia motivado e dado coragem pra fazer essa loucura.

O Retorno
Durante a descida, um sintoma incômodo da altitude começou a surgir, uma dor de cabeça leve, mas constante. Um alerta claro de que eu tinha que descer a uma altitude mais razoável e almoçar. Desci até os 4.000, recuperei meus equipamentos e fiz uma refeição liofilizada.
Continuei descendo até o santuário, que estava deserto, ali já não havia mais ninguém além de uns cachorros que ficaram irritadíssimos com a minha presença. Tive a sorte de que os guardiões do santuário escutaram os latidos e vieram puxar os cachorros. Eu podia passar mais uma noite ou ir embora, mas a vontade de comer um pratão de comida, tomar banho e dormir numa cama era enorme, e apesar de ainda faltar uma LONGA jornada, optei por ir embora, mesmo sabendo que chegaria à noite em Huacalera.
Nesse trajeto de retorno, quase não tirei fotos, com exceção dessa selfie de cara inchada, evidência do aumento de fluxo sanguíneo e de retenção de líquidos, causados pela altitude e comida. Sem falar no cansaço e na provável irritação da pele pela mistura de suor, areia e sol constante.

E foi assim, que em 1 dia, caminhei meu dia mais exaustivo da vida, por 23 km, com 1050 metros de subida e 2100 de descida, catando o lixo dos peregrinos que encontrava no caminho.

Quando cheguei no último cruzeiro, já de frente para Huacalera, consegui sinal de celular, liguei pro Líbio e perguntei se poderia me buscar. Felizmente, ele pôde, e foi aí que eu descobri que ele tinha ido embora cedo.
A caminhada que se seguiu dali foi meio cabulosa, afinal, eu tinha que caminhar pelo leito do riacho Arroyo de la Huerta, que apesar de seco, é MUITO largo.
Os 300 lúmenes da minha lanterna não iluminavam além da margem, fazendo com que a visão fosse idêntica em todas as direções, ou seja, só se via uma planície de areia e pedra por todos os lados.
A coisa realmente ficou assustadora quando comecei a escutar cachorros latindo furiosamente, e pareciam estar cada vez mais perto!
Eu não sabia se devia continuar caminhando lentamente, ou acelerar para chegar logo no carro antes que os cachorros me alcançassem.
Finalmente passei em frente ao portão aberto de uma propriedade, e percebi que os cachorros estavam vindo dali. Decidi correr antes que eles me vissem.
SIM, DEPOIS DE TUDO ISSO, EU AINDA CORRI!
Foi uma ótima ideia, pois quando os cachorros finalmente saíram da propriedade, eu já estava meio longe e eles não me perturbaram, pois eu já havia saído do território deles.
O Líbio já estava me esperando, voltamos conversando sobre essa loucura toda, e ele disse que se soubesse que eu iria até o cume, teria ido junto.
Nunca se tratou de chegar ao cume
Eu não queria impressionar ninguém, nem acho que o desafio físico e logístico sejam um grande mérito, porque esse nunca foi o objetivo das minhas idas à montanha. Eu fui cultuar aquela divindade andina (Sixilera), e por acaso, fui o primeiro brasileiro a fazer isso.
Existe MUITA gente esforçada por aí que só não conseguiria fazê-lo por não ter a sorte de haver nascido numa família de classe média e trabalhar à distância.
Conclusão, e mais um pouco de romance
A caminhada ao templo do cume de Sixilera não foi a mais bonita da minha vida, mas foi a mais impactante, me trouxe muita reflexão, muita emoção, e acabou sendo a caminhada mais exigente da minha vida, devido ao fato de eu ter caminhado sozinho e autossuficiente.
Foi um daqueles eventos divisores de água na minha vida, e eu precisaria escrever outro artigo pra falar sobre esses aspectos emocionais, espirituais e filosóficos.
Já no dia seguinte, fui às Lagunas de Yala com aquela que se tornaria minha atual namorada, Carina.

E essa é apenas uma das muitas histórias que viria a viver na província de Jujuy.

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